Ruminações II

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Pelos muros levantados se vê o escrúpulo da cidade. Nem as normas divinas impedem o movimento do homem, esse animal construtor de cidades. Prodígios fora do domínio de Deus, fortalezas muito antigas onde se encorajam as artes da dominação.

Ruminações

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O mais fraco espevita o apetite dos mais forte como reza a escritura dourada.

Seres animados

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Os cães dormiam à sombra das palmeiras
e os azulejos cintilavam ao marulhar da brisa.
Para lá do istmo, há casas brancas
rodeadas de loendros e figueiras endiabradas.

É feio atirar-lhe pedras.

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Segundo os princípios elementares nascemos pelo orifício peludo da vida. Nesta estreiteza está a chave do comando central das operações. Quando se dá o passo para fora (não há passo para dentro) o corpo sofre um impulso vertiginoso e o mecanismo começa a trabalhar.

Dois corpos mantêm-se ligados enquanto a vontade estiver ausente. A partir de qualquer fechadura disponível se pode observar o fenómeno. A proporção é sempre divina conforme instruções procedentes de cima e presenciadas ao longo dos últimos cinco milénios. Tensões acumuladas acaloram a sala onde os corpos ensaiam a falta de vontade. Contrariamente ao que alguns avisados afirmam, a plenitude não esta na ausência, mas na manobra, ou seja no desenho da dança. Cada corpo traz o seu morto e, em plena dança, o corpo vai libertando o seu morto. Um espectáculo comum em vários povoados; a espera impaciente pelos milagres há muito profetizados. Nalguns lugares ainda se denomina de concebido o libertar-se do morto pela dança.

A decadência avança em linha recta e invisível.

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(contribuições para a instrução política futura.)

A história merecia ser melhor contada mas o bardo imigrou e os analfas não aceitaram candidaturas nem fizeram concurso público a preceito da nossa constituição crucificada. Mas a historia é crónica e os analfas adormecidos pela vitória, não se aperceberam da geração espontânea dos alfabéticos, em hipótese, aprovados pela junta especializada.
Logo ao 4º dia na presença notarial do bispado e elite emplumada, os analfas, a troco de alguns vinténs corruptos, enterraram os entendimentos constitucionais e impuseram o X vermelho nas procuradorias e a benzedura como testemunho e prova da verdade.

Aquelas bandas estavam sujeitas à mudança horária. Alguns cavalheiros mais aprumados exerciam as gargantes e electro-fosforizavam harpejos enrolados. Estridentes a ouro-traje, incomodavam os burgueses das frisas, gordos bonacheirosos e sonolentos. Começou cedo o obséquio e o foguetório rebentou a estrear. Alguns, mais zombos cambaleavam. A maioria caminhava em formação abençoando a ordem e a compasso destroçando a bota direita.

António Queixoto toma a palavra:

-Por mim fala a vox da ciência, Senhor Comandante, petrificamos o tempo e dividi-mo-lo em unidades. Chamamos-lhe potências re-ligadas ao Eterno, a máxima potência. Atrofiamos e depois renascemos.

O Senhor Comandante esboça um aceno:

- Parecem-me uns fanáticos sem abrigo. Muito úteis para causas subversivas.

Queixoto insiste e reluz:

- Aparentemente traduzimos a tragédia em moinhos de vento, assim o absurdo toma conta do real, a ciência não consegue estimar estes intervalos.

O Senhor Comandante tira o bloco da esquerda e algazarra:

- Muito bem! Vejo que estudou a lição. Siga a despacho.

Os analfas acordaram tarde. Muito ronco deu no que deu. O ronco engasga o bronco como diz o povo. Regressaram à escravidão aparelhada mais uma vez. Multiplicaram-se em séries conforme os preceitos do dia. Em séries numeradas.

confusion will be my epitaph

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Hangman mark (perdi o rasto do autor...)


Não sei para onde vais nem me interessa. Deduzo que tenhas uma missão a realizar. Talvez seja essa a razão do teu ar esfíngico, um perdedor inconformado. Imagino um criminoso procurando o motivo do seu crime. Não há redenção para uma cabeça sem sonhos, como é a tua

Memórias acumuladas

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Miquel Barceló [site]


Montanhas de tralha produzida ao longo de milénios. São o grande armazém de memórias acumuladas. Nada da sua grandiosidade passada sobreviveu ao tempo dos homens, o único tempo porque sem homens não há tempo. As memórias são peças de um puzzle com várias soluções, múltiplos métodos de colocar as peças com resultados diferentes. É esta ilusão que já mal aguentamos. É um fardo pesado e inútil. O hábito, o ritmo biológico, o sim ou o não decididos milhares de vezes num dia – é este o mecanismo básico produtivo de memória reproduzida pela vida.

Até a nossa consciência não passa disso. Séries de repetições a diferentes ritmos impossíveis de contabilizar. Podemos separar partes dessas séries mas perdemos sempre o todo. A parte separada do todo é outra coisa. Talvez seja isto a que chamamos conhecimento. A nossa concentração consciente aponta para o pormenor, para o detalhe, para a parte, para os variados fenómenos parciais a que reagimos, atentos. Ora durante milénios fomos guardando estes fenómenos isolados em conjuntos, em conjuntos de conjuntos, etc. Esta organização é apenas operativa, aditiva ou subtractiva, nunca nos dará o todo ubíquo, uma velharia estimável apenas.

O Dia da Coragem

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1

Não sei como se adivinham
tempestades. No fim de uma estação
as borboletas morrem e o vento quebra
em varandas altas. É por trás dos vidros
que nos defendemos contra todas as surpresas.
Morremos de antemão. E já sob trovoada
assombra-nos o voo dos pássaros à chuva.

2

Todos sabemos acender um fósforo
a quem nos pede lume.
Talvez fosse uma conversa
possível até ao fim. Mas o mais vulgar
é ficarmos onde estamos
com o fósforo aceso à beira do rosto
– e antes de haver tempo
a chama queima os dedos.


3

Pequenos negócios, olhares lançados
sem dilatação. Dedos a tocar
mármores tão frios. Sombras sem memória
de mesas de cafés. Tudo apagamentos
– como um jornal esquece
mais um dia.


4

Num dia assim contemplar as nuvens
ou enfrentar a morte: é isto que dizemos
enquanto prometemos o dia da coragem.

Mas o mais temível são as coisas simples:
prazos terminados inúteis providências
afectos que se pegam
como nos invernos as constipações.


5

Desencanto a voz. Uma atenção miúda
faz daquele arbusto um feixe de absurdos.
Narinas deste cão centrando um mundo
e duas abelhas ali ao mesmo tempo:
é isto que agora só interessa – atravessar
o jardim pelo meio da cidade
muito calado para entrar em casa.


6

A chuva alterou toda a paisagem.
Novos charcos e folhas mais brilhantes
um halo que custa a desvelar.
São guarda-chuvas o que os homens abrem
cafés despenteados por rumor de gabardinas.

Mesmo com sapatos sou um cão à chuva
e tenho os pés molhados como queria.


7

O mal vem aos rostos e mata o coração.
Tivemos de aprender a dor civicamente:
o olhar ferido por inexpressões
o assobio das faces carcereiras
essa armação da voz, as predações
– e sempre tudo dentro
de espelhos verdadeiros, salões de festas, lustres…


8

Pedi uma carteira. Queria fazer lume
deitar fumo da garganta e ficar só.
Breves palavras de tabacaria. E mesmo aí
fiquei a dever por falta de troco.


9

Podia marcar as incursões do sol
por esta sala. Alimentar uma esperança
solar. Mas as estações são indomáveis
e uma casa é um jogo de janelas
que se fecham. Mosca inerte nas vidraças
laranja que apodrece sobre a mesa:
eis os pequenos seres na ratoeira.

Carlos Poças Falcão


-tenho imensas saudades tuas, Carlos!

sobre a consciência universal

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" A consciência universal é frequentemente comparada ao oceano: uma massa fluída, indiferenciada e a primeira fase da criação corresponderia à formação de vagas. Uma vaga pode ser considerada como uma entidade individual e no entanto, é evidente que a vaga é o oceano e o oceano a vaga. Não há separação final. A fase seguinte da criação seria uma vaga que ao quebrar-se forma gotículas de água que vaporizam no ar . Estas gotículas existem em entidades individuais durante um curto período, antes de serem de novo engolidas pelo oceano. Assim temos aqui momentos fugitivos de existência separada. Mas imaginem agora a água que se evapora e forma uma nuvem. A unidade original é obscurecida e escondida por uma verdadeira transformação e é necessário ter certo conhecimento em física para darmo-nos conta que esta nuvem é o oceano, e o oceano a nuvem. No entanto a água da nuvem reúne-se finalmente com a do oceano sob a forma de chuva. A separação final, onde a relação com a fonte original aparece completamente camuflada é frequentemente ilustrada por um floco de neve que se cristaliza a partir da água da nuvem evaporada do oceano. Uma entidade muito estruturada, muito individual e separada que não comporta, convenientemente, nenhuma semelhança com a sua fonte. Agora temos realmente necessidade de um saber sofisticado para reconhecer que o floco de neve é o oceano e o oceano o floco de neve. E para reunir-se com o oceano o floco de neve deve abandonar a sua estrutura e a sua individualidade; deve sofrer uma morte do ego, em certa medida, para voltar à sua origem."

Texto encontrado algures na rede traduzido por mim. Desconheço o autor.

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